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Ler Borges com o Quixote à cabeceira (I)

Outubro 12, 2007

Um dia disse o argentino Jorge Luís Borges que o indivíduo «não vale pelo que escreve, senão pelo que lê». O homem de letras declarava – de modo sintético, como sempre – o seu amor pela palavra alheia e em particular a sua admiração cúmplice pelo Quixote; pelos desvarios de um cavaleiro com tanto de herói como de louco, que representa na perfeição o esqueleto de uma Idade Média contada pela mão intemporal de Miguel de Cervantes.

Imaginemos que o mundo perfeito não é mais que uma colossal e interminável biblioteca, organizada e incomensurável, geométrica e caótica ao mesmo tempo. Um emaranhado de livros que pedem para ser abertos e de páginas que só existem depois de viradas. Este podia ser o retrato do paraíso segundo Jorge Luís Borges.

Se é o mundo ibero-americano aquele que, 20 anos passados sobre a sua morte, mais se identifica com o filho dos subúrbios de Buenos Aires (Argentina, 1899), parecem não sobrar dúvidas quanto à universalidade dos seus escritos e da sua pessoa. Tão cedo como começou a ler inglês (antes que em castelhano, por influencia de sua avó de origem britânica), Borges descobriu também Miguel Cervantes e a sua obra-prima: o Quixote.

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Como muitos dos homens inesquecíveis, Borges foi uma criança especial. Aos oito anos, inspirado nas leituras das cavalarias cervantinas, escrevia o seu primeiro conto, A Víscera Fatal, e aos nove já traduzia O Príncipe Feliz, de Óscar Wilde, para o jornal El País. É em Génova (Suiça), depois de viajar pela Europa com a sua família, que em 1914 o escritor conhece a obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, acrescentando-a nas suas referências bibliográficas a nomes como o ensaísta inglês S.T. Coleridge ou o escocês Robert L. Stevenson, autor de clássicos como A Ilha do Tesouro. O Quixote estava para Borges a outro nível.

Mas que nível era esse? Que podiam valer para um autor vanguardista do século XX, criador do estilo hoje conhecido como realismo fantástico, os relatos de um Cervantes que foi o exponente máximo do Barroco nas letras castelhanas? Em que se tocam as existências de um homem letrado desde a sua infância, que viveu numa América do Sul cambaleante entre o fervor autoritário e a liberdade sem limites, e presenciou a destruição de boa parte da Europa nas duas grandes guerras, e a de um soldado do século XVI que serviu a coroa espanhola durante a dinastia dos Felipes?

A conexão é avultada e está estampada nos dois volumes de Don Quijote de La Mancha, publicados já no século XVII, no Outono da vida de Cervantes (1547-1616). Quixote, o livro de cavalaria que satiriza e destroça o género de que forma parte, não teria um carácter tão imutável se fosse unicamente alegre ou engenhoso. Só quando à imaginação se acrescentam a lucidez e a demolidora ironia, só aí as palavras podem ganhar uma intemporalidade comparável à do bronze de Corinto. Essas são as palavras do Quixote.
(continua)

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2 comentários

  1. Lembraste-me agora os meus dois volumes quixoteanos em espanhol por ler, comprados directamente numa feira alfarrabista em Barcelona. Fico a aguardar a continuidade…*


  2. […] Ler Borges com o Quixote à cabeceira (II) Outubro 13th, 2007 Este post começou aqui. A continuação segue […]



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