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Ler Borges com o Quixote à cabeceira (II)

Outubro 13, 2007

Este post começou aqui. A continuação segue abaixo.

Bem cedo se apercebeu Borges do valor dos escritos do Manco Lepanto. Cervantes havia conseguido alcançar uma forma elegante e astuciosa de contar a realidade fazendo ficção, de ferir profunda e subtilmente sem derramar uma gota de sangue, de criticar o quotidiano e a cercania divagando como um louco sobre amores irrealizáveis, gigantes e moinhos de vento. E Borges também queria fazê-lo, queria pensar como ele.

Depois de viver em Espanha durante dois anos (1919-1921), onde frequentou os círculos literários, o escritor sul-americano regressou à efervescente Buenos Aires dos anos 20, consolidando a sua carreira como poeta através de textos publicados em diversas revistas da especialidade. Começa a escrever os seus contos de índole fantástica cerca de uma década depois. Mesclando propositadamente o onírico e o real, o velho bruxo – como muitos lhe chamavam – não se aparta por completo do tangível e verdadeiro, abarcando na nua narrativa o sobrenatural e o místico sem romper com o realismo.

Das obras borgenas destacam-se História Universal da Infâmia (1935) e Ficções (1944). Nestas duas compilações de pequenos contos – considerados por Ítalo Calvino, seu contemporâneo, como «a última grande invenção de um género literário» – Borges explana todos os seus recursos estilísticos. Títulos como A Biblioteca de Babel, O Jardim das Veredas que se Bifurcam e Pierre Menard, autor do Quixote, ilustram perfeitamente a carga metafísica, filosófica e teológica dos seus «delírios do racional» (Adolfo Bioy Casares).

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Também de prémios – que não existiam no tempo de Cervantes – foi feita a vida de Borges. Em 1961 comparte com o irlandês Samuel Beckett o Prémio outorgado pelo Congresso Internacional de Editores e, depois de muitas outras condecorações, recebe em 1979 o Prémio Cervantes. «Recordo a primeira vez que li o Quixote, aí pelos anos 1908 ou 1907, e penso que senti, ainda então, que apesar do título enganoso, o herói não é Dom Quixote; o herói é aquele fidalgo mancebo ou senhor provinciano», disse Borges ao receber o galardão das mãos do monarca espanhol. Esta era a convicção do ícone literário argentino: a de que Quixote pode verdadeiramente ser cada um dos que lêem as aventuras do «cavaleiro da triste figura».

Se a vida fosse um dia, dir-se-ia que Borges conseguiu ao final da manhã aquilo que Cervantes somente logrou alcançar ao entardecer. Ma enquanto o primeiro vivia rodeado de livros, desde os clássicos aos seus coetâneos, o segundo apanhava papeis que encontrava pelas ruas da sua terra natal (Alcalá de Enares) para saciar a sua sede de conhecimento. Miguel de Cervantes viveu na obscuridade de uma sociedade medieval e fê-la desmoronar através de uma risada colossal sobre uma cavalaria andante e agressiva. Jorge Luís Borges nasceu nas luzes e nas luzes inscreveu a sua obra e depositou o seu legado, caminhando lentamente para a penumbra física e inevitável (ficou completamente cego aos 50 anos). Todavia, Jorge teve sobre Miguel uma simples mas imensa vantagem: a de haver vivido depois dele.

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