Archive for the ‘das mãos’ Category

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das leituras: pequeno balanço

Dezembro 24, 2007

Diz-me o meu blogue, cumprindo a bonita função de diário-público-facilmente-conspurcável que lhe cabe, que no ano passado por esta data andava eu a ler Tratado Político, de Espinosa. Ora, este ano, com o Natal aí – e intercalando tamanho texto com o evidentemente menor Delfim, do Cardoso Pires – tenho-me queimado na Boca do Inferno. Para quem não sabe – e desgraçados os que ainda não sabem (assim mesmo, em tom desafiante e amaldiçoador) – Boca do Inferno é um primoroso amontoado de crónicas saídas da pena Ricardo Araújo Pereia (óbvio que já ninguém escreve com pena, pelo que e expressão é já de si descabida). Achei que era o momento de falar brevemente sobre esta diferença literária à escala de 365 dias.

É que se em 2006 eu perdia um Dezembro ainda bracarense a ler coisas como «não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos», este ano ganhei juízo e tenho ocupado as hora com bonitos e curtos textos cujos temas dominantes são de agarrar qualquer leitor pelos colarinhos. Veja-se: seios, Vasco Pulido Valente, seios, o Benfica, seios, José Sócrates, seios e Santana Lopes. Às vezes, Ricardo Araújo Pereira varia um pouco e escreve também sobre seios. E sobre o Benfica. Todo um rasgo de originalidade, o rapaz.

Ora, não pude deixar de vir aqui, publicamente, dar-vos conta desta minha atitude: de um momento para o outro, que é como quem diz de um ano para o outro, larguei-me de toda essa cultura medíocre, popular (sinónimos, como bem sabemos) e de arruaça, composta por Espinosas, Nietzsches, Calvinos, Al Bertos e outros que tais; e entreguei-me à palavra de recorte fino de Ricardo Araújo Pereira (acho que ele ia gostar da expressão. Tem um quê de futebolística). E garanto, nada como subir os degraus da escada literária (cá está uma frase digna dos melhores livros de Margarida Rebelo P.), deixar para trás a facilidade bafienta desses estroinas seculares e levarmo-nos a consumir no fogo de uma Boca do Inferno intelectualmente superior.

Ricardo, se me estás a ler, um abraço. Ter o teu livro é como ser dono da melhor Visão alguma vez publicada. Não tenho seios (muito menos grandes) mas gosto de ti, pá (e esta frase vem à liça de não poder concluir o texto sem usar uma expressão ao menos medianamente homossexual).

Feliz Natal.

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outra crónica

Novembro 26, 2007

mais uma crónica no ComUM.

Esquinas passadas

O passado. Não se vive o passado. Quando muito, vive-se com ele. Opta-se. Nunca fui bom com passados. O meu, guardo-o para mim. Que acho que é assim que deve ser. Faço como escrevia Virginia Wolf. «Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas conhecem o título». Nem mais uma linha.

Não somos tábuas rasas. A cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás. Depois depende. Seguindo a imagem-livro, há quem esconda o passado na última prateleira da estante, quem goste de apresentar todos os capítulos amiúde e quem não perca a oportunidade de declamar uma passagem que entretanto decorou. Outros há que põem o livro no escaparate, que esperam que o passado os empurre para o futuro, que não largam o primeiro. O passado como Bíblia.

Eu cá faço a vida por contos. Abro um conto, fecho um conto. Guardo-o para mim. Ou mostro-o, muito parcimoniosamente. Reflicto.

«Quando afirmamos que o passado foi melhor, condenamos o futuro, sem conhecê-lo», escreve Francisco de Quevedo. Será esta a parcela perigosa do saudosismo? A de recordar o que lá vai engrandecendo a memória? Não sei. Saudosista sou. Gosto de recordar tempos idos. Para mim. E sem hipérboles. Não vou com Gorki – «A carruagem do passado não nos leva longe» – e apoio Santayana – «Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo». Mas Tchekhov, esse, parece ainda mais sábio: «Onde estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo». Ponto.

Para mim, o passado é uma mulher que passa longe. Às vezes bela, outras grotesca. Sempre distante. O passado é uma bonita flor sem cheiro, um frutado vinho sem sabor, um caderno sem folhas (ou de folhas completas). Louise Levêque Vilmorin dizia que «o passado existe quando se está infeliz». E há, parece-me, alguma verdade nestas palavras. O passado não existe. Está lá. Foi. Mas não existe. Não voltarei a ter dezoito anos. O passado não é uma máquina do tempo.

Agarrar-se ao passado pode também ser uma questão de conforto. De querer repetir o mesmo fotograma, o mesmo ângulo, a mesma luz. Disparar. «O passado, pelo menos, é seguro», opina Daniel Webster. E o nosso Virgílio Ferreira é mais conselheiro: «Guarda o passado, se não tens já futuro». Num apontamento mais político-social, que aqui nem vem tanto ao caso – tal é o tom afectuoso da coisa – assumiu-se uma vez que «quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado». (Orwell) Passado ditador, portanto.

Escrever sobre isto fez-me, curiosamente, recordar, rememorar, relembrar, recapitular, evocar que… «o único encanto do passado consiste em que é o passado». (Oscar Wilde).
Até amanhã.

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do regresso

Novembro 20, 2007

volto com a chuva. regresso à partitura em dias molhados, dias uns mais sonhados que outros, mais quentes que outros, mais perfeitos ou falhos. uns que outros.

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deixar o quente da cama para abraçar as goteiras da cidade velha. nunca viram o bairro alto às onze horas? as manhãs no bairro são outra coisa. manhãs de ruas sujas do lixo da outra noite, de carros que carregam de cerveja as gargantas que mais logo chegarão. bairro da velha que não sai de casa aos anos e que para receber a correspondência desce um saco plástico atado por um cordel. bairro de mulheres gastas que, bata posta, vivem de manhã, comem de manhã, só respiram de manhã. bairro dos trolhas, dos bonés, das mãos carcomidas e dos cigarros trolhas.

lisboa é a cidade em que uma míuda de chuva, vinte e poucos, me pede 50 cêntimos e eu respondo com um não molhado e nocturno e depois me arrependo.

volto com a chuva. para escrever aqui. mais amiúde.

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hoje acho que..

Outubro 29, 2007

..a solidão povoada é a pior das companhias.

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Ler Borges com o Quixote à cabeceira (I)

Outubro 12, 2007

Um dia disse o argentino Jorge Luís Borges que o indivíduo «não vale pelo que escreve, senão pelo que lê». O homem de letras declarava – de modo sintético, como sempre – o seu amor pela palavra alheia e em particular a sua admiração cúmplice pelo Quixote; pelos desvarios de um cavaleiro com tanto de herói como de louco, que representa na perfeição o esqueleto de uma Idade Média contada pela mão intemporal de Miguel de Cervantes.

Imaginemos que o mundo perfeito não é mais que uma colossal e interminável biblioteca, organizada e incomensurável, geométrica e caótica ao mesmo tempo. Um emaranhado de livros que pedem para ser abertos e de páginas que só existem depois de viradas. Este podia ser o retrato do paraíso segundo Jorge Luís Borges.

Se é o mundo ibero-americano aquele que, 20 anos passados sobre a sua morte, mais se identifica com o filho dos subúrbios de Buenos Aires (Argentina, 1899), parecem não sobrar dúvidas quanto à universalidade dos seus escritos e da sua pessoa. Tão cedo como começou a ler inglês (antes que em castelhano, por influencia de sua avó de origem britânica), Borges descobriu também Miguel Cervantes e a sua obra-prima: o Quixote.

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Como muitos dos homens inesquecíveis, Borges foi uma criança especial. Aos oito anos, inspirado nas leituras das cavalarias cervantinas, escrevia o seu primeiro conto, A Víscera Fatal, e aos nove já traduzia O Príncipe Feliz, de Óscar Wilde, para o jornal El País. É em Génova (Suiça), depois de viajar pela Europa com a sua família, que em 1914 o escritor conhece a obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, acrescentando-a nas suas referências bibliográficas a nomes como o ensaísta inglês S.T. Coleridge ou o escocês Robert L. Stevenson, autor de clássicos como A Ilha do Tesouro. O Quixote estava para Borges a outro nível.

Mas que nível era esse? Que podiam valer para um autor vanguardista do século XX, criador do estilo hoje conhecido como realismo fantástico, os relatos de um Cervantes que foi o exponente máximo do Barroco nas letras castelhanas? Em que se tocam as existências de um homem letrado desde a sua infância, que viveu numa América do Sul cambaleante entre o fervor autoritário e a liberdade sem limites, e presenciou a destruição de boa parte da Europa nas duas grandes guerras, e a de um soldado do século XVI que serviu a coroa espanhola durante a dinastia dos Felipes?

A conexão é avultada e está estampada nos dois volumes de Don Quijote de La Mancha, publicados já no século XVII, no Outono da vida de Cervantes (1547-1616). Quixote, o livro de cavalaria que satiriza e destroça o género de que forma parte, não teria um carácter tão imutável se fosse unicamente alegre ou engenhoso. Só quando à imaginação se acrescentam a lucidez e a demolidora ironia, só aí as palavras podem ganhar uma intemporalidade comparável à do bronze de Corinto. Essas são as palavras do Quixote.
(continua)

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que fazemos nós lisboa

Agosto 24, 2007

Encontrei os meus recentes dias de inércia, às vezes penosa, às vezes suportável, raras vezes maviosa, retratados nas palavras do poeta O’Neill. «Que fazemos nós, Lisboa, os dois aqui na terra em que nascemos e eu nasci». Os últimos tempos passados na capital – onde, para bem da verdade, devo admitir que não nasci – têm-me ofertado um travo agridoce às vezes difícil.

Entre incertezas profissionais, miradouros sobre o tejo, telefonemas que não chegam, paixões desenfreadas, trabalhos adiados, pequenas celebrações casuais, torpor desocupado e passeios incertos, esta Lisboa tem-se-me mostrado uma montanha russa. Boa para a vida anárquica, como gosto. Menos sã para a saúde financeira e para as vontades de trabalho, que tanto me fazem falta.

Percorro as folhas do caderno e encontro uns riscos a lápis, escritos de há uns dias, aí numa qualquer mesa de café da Baixa. «Com 22 anos [agora já 23], gosto de me perguntar à noite e em silêncio: que queres ser quando fores grande? Depois lembro-me que grande já sou e que espelhos não mentem. Aos 22 anos [agora já 23], nunca tive tantas dúvidas, nunca levantei tantas e tantas vezes a cabeça da almofada sem saber que vou fazer; pior, sem saber que quero fazer.»

No quarto o sol já rareia e das colunas sai Maria Rita. Apercebo-me que voltei ao post-desabafo, coisa inédita nos últimos tempos. Mas que se dane, é como (quase) sempre: deixar os dedos correr no teclado que já não olho e ver que sai. Hoje saiu assim.

E eu nunca desejei tanto um telefonema que não chega como neste final de tarde soalheiro.

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da ausência

Agosto 1, 2007

o excesso de tempo livre tem-me levado a descuidar a escrita por aqui. não minto, padeço desse mal: demasiado tempo livre leva-me a querer fazer tudo e a nada fazer. ando, portanto, a divagar entre mãos cheias de coisas que pretendo levar adiante. espero encontrar-me depressa, já nos próximos dias. às vezes cansa-me isto de ser diletante.
até já.