Archive for the ‘da literatura’ Category

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ensaio

Janeiro 22, 2008

Ontem olhei para a estante lá de casa. Procurei qualquer coisa pujante, que me mantivesse acordado por quanto tempo me apetecia – não tinha sono, muito menos vontade de dormir. Passei a mão pelo retrato de Dorian, escrito pelo Wilde, ainda olhei para as crónicas do Ricardo Araújo e do Fidalgo. Mas não era aquilo. Continuei e nada. Nada daquilo.

Finalmente, vi-o. De rajada, peguei nele, acendeu-se-me um cigarro na boca e foram vinte páginas. Deitei-me e segui lendo. Feliz por revisitar páginas tão queridas, tão tristes.

Voltei à cegueira branca de Saramago. Em boa hora.

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das arquitecturas do silêncio (VI)

Janeiro 17, 2008

«o vazio foi sempre a minha preocupação essencial; e estou seguro de que, no coração do vazio como no coração do homem, há fogos que queimam»

Yves Klein

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das leituras: pequeno balanço

Dezembro 24, 2007

Diz-me o meu blogue, cumprindo a bonita função de diário-público-facilmente-conspurcável que lhe cabe, que no ano passado por esta data andava eu a ler Tratado Político, de Espinosa. Ora, este ano, com o Natal aí – e intercalando tamanho texto com o evidentemente menor Delfim, do Cardoso Pires – tenho-me queimado na Boca do Inferno. Para quem não sabe – e desgraçados os que ainda não sabem (assim mesmo, em tom desafiante e amaldiçoador) – Boca do Inferno é um primoroso amontoado de crónicas saídas da pena Ricardo Araújo Pereia (óbvio que já ninguém escreve com pena, pelo que e expressão é já de si descabida). Achei que era o momento de falar brevemente sobre esta diferença literária à escala de 365 dias.

É que se em 2006 eu perdia um Dezembro ainda bracarense a ler coisas como «não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos», este ano ganhei juízo e tenho ocupado as hora com bonitos e curtos textos cujos temas dominantes são de agarrar qualquer leitor pelos colarinhos. Veja-se: seios, Vasco Pulido Valente, seios, o Benfica, seios, José Sócrates, seios e Santana Lopes. Às vezes, Ricardo Araújo Pereira varia um pouco e escreve também sobre seios. E sobre o Benfica. Todo um rasgo de originalidade, o rapaz.

Ora, não pude deixar de vir aqui, publicamente, dar-vos conta desta minha atitude: de um momento para o outro, que é como quem diz de um ano para o outro, larguei-me de toda essa cultura medíocre, popular (sinónimos, como bem sabemos) e de arruaça, composta por Espinosas, Nietzsches, Calvinos, Al Bertos e outros que tais; e entreguei-me à palavra de recorte fino de Ricardo Araújo Pereira (acho que ele ia gostar da expressão. Tem um quê de futebolística). E garanto, nada como subir os degraus da escada literária (cá está uma frase digna dos melhores livros de Margarida Rebelo P.), deixar para trás a facilidade bafienta desses estroinas seculares e levarmo-nos a consumir no fogo de uma Boca do Inferno intelectualmente superior.

Ricardo, se me estás a ler, um abraço. Ter o teu livro é como ser dono da melhor Visão alguma vez publicada. Não tenho seios (muito menos grandes) mas gosto de ti, pá (e esta frase vem à liça de não poder concluir o texto sem usar uma expressão ao menos medianamente homossexual).

Feliz Natal.

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das arquitecturas do silêncio (V)

Dezembro 20, 2007

quando não estás,
cortam-se horas em golpes que sangram a merda dos dias.

quando não vens,
kamikazes e explosivos e corações de pétalas rebentam incessantes.

esquecer-me de ti.
encontrei a solução impossível.

José Oliveira

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neste mar a letra

Dezembro 17, 2007

duas frases que me ficaram. hoje, às voltas no mundo de palavras da web, à procura não sei bem de quê – mas com uma vontade atroz de encontrar o que fosse, qualquer coisa capaz de me apaziguar as entranhas.

Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (…) Eu sei assim reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é que ele não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.
Antoine de Saint-Exupéry

Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.
Goethe

assim vamos.

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ler, essa terrível obrigação

Novembro 30, 2007

Parece que, em Espanha, 22 por cento dos estudantes universitários admite nunca pegar num livro. Por cá, a coisa será diferente?

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meio ano num sonho azul

Novembro 12, 2007

«conheciamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos
cruzávamos olhares cúmplices
falámos muito não me recordo de quê
e no calor dos corpos crescia o desejo
caminhámos pela cidade
eu metia as mãos nas algibeiras
(…)
a imagem azulada das tuas mãos flutuava diante de mim
gesticulavas para me dizeres que estávamos vivos e apaixonados»

Al Berto

e estávamos. estamos.