Archive for the ‘das mãos dos outros’ Category

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os amigos vão dar música neste blogue (IV)

Agosto 31, 2007

Depois do Hugo, da Liliana e da Carolina, é a vez do companheiro Sílvio Mendes, do Plantar Ideias, dizer de sua justiça em relação à música de 2007. Muito português, muito intimista. É assim o Sílvio, são assim os acordes do texto que segue abaixo. A ler.

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«’Quero que saibas que cago no amor’, dito assim.

A música começou por ser um ramo da matemática, depois cresceu, esticou bem o tronco, e infiltrou-se nos sentidos. Acho que é assim que se ama. Com matemática e física e música infinita. É assim que deve ser.

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Vivo na aresta do trauma, uma pequena desgraça corre-me por dentro: desde 1997 que tudo me sabe a pouco. E, contudo, desde esse ano que continuo a apaixonar-me violentamente pela marcha da sensibilidade. Não haja dúvidas, 97 é mesmo o ano da viragem. Radiohead ao leme e Ok Computer a deixar cicatrizes no mar. É por lá que os peixes espreitam o céu, é nessas fissuras que o homem mergulha a cabeça e tenta esquecer o tempo.
Mas veio o futuro, sem stress pós-traumático, apesar do trauma dos grandes. Estamos historicamente com duas mãos cheias de anos passadas. Linha salta

no tempo. E nem tudo é olhar para trás. Este desafio é simples, óbvio, de resposta rápida, nacionalista, anti-moralista e arrogante. O melhor de 2007 está dentro de portas, com título de álbum no longínquo ano de 1970. É só um título, bem sei, mas entre 70 e 97 haverá certamente alguma margem fantasiosa para corroborar este texto. É a matemática. Assinada por um homem que é uma fábula, o carnaval português a escrever, samba desajeitado na tremura dos joelhos, é tempo de gritá-lo: JP Simões (ex-Pop Dell’Arte, ex-Belle Chase Hotel, ex-Quinteto Tati) é fogo mesmo. O Silvóscar vai para a balada transgénica Se por acaso (me vires por aí). Porquê? Pela ternura infinita dos sentidos, porque o trovador não morre se não lhe faltar o amor, porque há a voz de Luanda Cozetti (Couple Coffee) a açucarar, porque vivo na aresta do trauma, por dentro, desde 1997. E porque são precisos dez anos para voltar a nascer uma música assim».

Sílvio Mendes

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os amigos vão dar música neste blogue (III)

Agosto 29, 2007

O terceiro tomo da série de textos sobre as músicas deste 2007 que ainda corre tem o cunho da amiga Carolina Lapa, autora do Immerse Your Soul in Love. Diz-se por aí que a Carolina tem cantarolado muito neste verão, reflexos de sol, felicidade e assim. E isso mostra-se nas escolhas musicais da menina. Confiram.

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«Carolina, o que levas no leitor de mp3? – É pop, senhor.

Exames. Festa. Festa. Exames. Jogos de cartas. Festa. Exames. Pessoas. Sofreguidão, sorver o ar com medo de que tudo terminasse. Exames.

Depois de toda a actividade da minha última época de exames (foi a melhor descrição que consegui arranjar) saquei da cartola um fim-de-semana de férias e mergulhei no trabalho diário aqui.

O cuco piou durante um mês e meio às 6:30 (entretanto parou porque o empalei com a raiva… hã, mentira. Comecei a trabalhar de tarde. WWF, eu estava a brincar…). Mesmo assim eu ia ter com o clã para palrar a noite toda… Um mês passado e assolou-me “Um supremíssimo cansaço. Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço…”.

Até agora ninguém compreende o porquê de tal exposição visceral da minha vida pessoal, mas isto eventualmente há-de chegar à música.

O que acontece? Acontece que tudo quanto é música cerebral pouco motiva quando o cérebro agoniza por um pouco de Centrum (abaixo as vitaminas placebo!). Sobra a música que faz mexer involuntariamente a cabeça, ou um pé. E onde a encontrei? A ver televisão, o meu momento de brutalização depois do trabalho. Zapping obsessivo e aparece um videoclip com dois meninos que vestiam umas t-shirts que mudavam os desenhos. E a música dizia “do the dance”. Li dias mais tarde no Y que eram os Justice, a nova dupla francesa electrónica a suceder ao trono dos Air e dos Daft Punk. Do álbum Cross, D.A.N.C.E. faz caminhar aos saltinhos e cantarolar Do The Dance ao estilo Michael “Thriller” Jackson (até se imagina o ladrilho do passeio a fazer luz).

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Outra música que me encheu as medidas é de 2006. Junior Boys. Retirada do álbum So This Is Goodbye, In The Morning começa com um sampler agudo e angustiado agarrado por uma bateria e um suspiro presente em todo o tema. Ouve-se uma voz que sussurra “too young” in the morning. A carga, a batida, o suspiro continuam numa cadência sexual. Gosto.

E acho que já escrevi demais. O Beja tinha dito dois parágrafos…»

Carolina Lapa

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os amigos vão dar música neste blogue (II)

Agosto 28, 2007

E cá está o segundo de uma série de textos sobre a música feita (ou escutada) nos meses que vão de 2007. Desta vez tem a assinatura da amiga Liliana Pacheco, do Miragens, e passeia-se essencialmente pelos concertos a que a autora teve o prazer de assistir este ano.

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“A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa.”

Edward Elgar

«Há um espartilho: o tempo. Espartilho demasiado apertado, talvez. Mesmo assim, vou tentar cumprir esta prerrogativa e enumerar as músicas que mais me escoltaram no ano de 2007. Optei pelo critério do espectáculo ao vivo – porque este está a ser um ano excepcionalmente opulento em bons concertos.
Cedo a Cronos: The Magic Position, do álbum homónimo do Patrick Wolf. É datado de 2006, mas foi em Abril deste ano que assisti à sua performance no Theatro Circo. Se já achava piada, depois deste encontro não consegui mais existir sem ele: submergir com um Robin dos Bosques excêntrico, em florestas imaginárias e patinar com os acordes de um violino mágico.

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Segundo round: No Cars Go – Neon Bible, Arcade Fire. Esta escolha abrange o álbum todo, que, se como muitos o acusam, não trouxe a boa surpresa do primeiro, carrega às costas toda a envolvência que caracteriza a trupe canadiana. Escusado será dizer que a sua actuação no Super Bock Super Rock foi um dos momentos altos desta minha existência – não conseguia extravasar tanto êxtase depois de tamanha expectativa para os ver.
A performance a que mais vezes assisti este ano foi a dos portuenses Sizo, que lançaram há pouco o seu primeiro trabalho, Nice to Miss You. A proximidade geográfica facultou este facto. Também ajuda o vocalista João Guedes ser um animal de palco e o seu registo vir de encontro às minhas preferências.
Last but not least, The Cinematic Orchestra – To build a Home, do album de 2007, Ma Fleur. Os únicos desta lista que não tive o prazer de ver ao vivo, mas continuo na esperança – e já agora deixo aqui a sugestão ao milagreiro Paulo Brandão.
Despeço-me com uma citação (como tanto gosto): Schopennhauer para os meninos e para as meninas».

“A música é um exercício de metafísica inconsciente, no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia”.

Arthur Schopennhauer

Liliana Pacheco

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os amigos vão dar música neste blogue

Agosto 27, 2007

A vossa atenção. Começa aqui e agora a publicação de uma série de textos, colaborações por mim pedidas a uns quantos amigos bloggers. O desafio foi este: que me digam qual é, até ao momento, a melhor música de 2007. A resposta, bem sei, é extremamente complicada – e disso se dá conta no texto do Hugo Torres, que segue mais abaixo.

Sei, porém, que me agrada a ideia de meter esta gente bonita a escrever sobre acordes e publicar o resultado disso aqui, no blogue. Provavelmente teremos respostas mais e menos complexas, certamente todas elas bem díspares. E, também porque gosto disso, conto seguir com a iniciativa, propondo novos âmbitos (sempre com um piscar de olho cultural) a estas e outras pessoas.

Assim, seguem abaixo as primeiras escolhas e respectivo texto desta série, o do amigo Hugo Torres, do Sozinho a Desenhar. A Encruzilhada, assim lhe chama o autor.

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«Este pedido é impossível. É. A meia dúzia de linhas requisitadas apenas pode tomar lugar num compêndio infindável de desculpas, reticências, interrogações, coisas arrebatadas e olhares indizíveis, roucos, vociferados, atormentados: olhares-montros.
Uma mão que bate na outra que descarrega malas, sem telegrama!, no sexo incapaz, lúcido – pecados acidentais, um desporto de encontros sem lucro, um acontecer dos dedos, uma dádiva, enfim, uma crença.

Uma música não é só uma canção, é o cigarro dos fumadores, o coração dos apaixonados, a rede dos pescadores. Uma música. Que fosse uma, não cabia num mundo. (Num mundo de deus, talvez – que, a ser bem escrito, são muitos.)
A música não é uma competência, nem um carrossel – e nestas duas negações encontramos terceira: a música não é mulher. [Os silogismos não se arquitectam, existem.] A música é um sopro que puxa. (Não empurra.)

Nestes termos, 2007 nunca nasceu. Assim, não chegará a perecer às garrafas de champanhe.

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A magia de um número. De uma palavra, de um ponto. Da cor de uma estrela que já sobreaqueceu e foi engolida pelo mofo dos seus próprios dias. Abbey Road (1969) podia ser o álbum deste escrito. Regressou com uma força inigualável e destaca-se – sem rival!, asseguro-vos – de tudo o resto em voltas à bicicleta. Sim: nestes últimos tempos. Tudo o resto vem e sobra.
Claro que há entusiasmos:
Standing in the Way of Control, canção dos Gossip que titula o álbum de 2006; a opereta ultra-Pop de Mika, Grace Kelly, da estreia Life in Cartoon Motion (2007); o Drums and Guns (2007) – inteirinho! – dos Low.
Por casa: o atrevimento dos Sizo de fazer coisa em condições, com
Nice To Miss You (2007), e a contagiante e libertária Big Three, ou a asfixiante You Ate the Stars. Ah! e aquela canção que é nova mas não vai entrar na notícia Clã – que só chega ao plástico em Outubro –, que é pequenina e a Man’ela se põe aos berros: «Comprei eu, comprei eu, comprei eu…»

Não quero falar mais disto. A liberdade acima de tudo. (Obrigado, Luiz Pacheco.)»

Hugo Torres