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outra crónica

Novembro 26, 2007

mais uma crónica no ComUM.

Esquinas passadas

O passado. Não se vive o passado. Quando muito, vive-se com ele. Opta-se. Nunca fui bom com passados. O meu, guardo-o para mim. Que acho que é assim que deve ser. Faço como escrevia Virginia Wolf. «Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas conhecem o título». Nem mais uma linha.

Não somos tábuas rasas. A cada recomeço é impossível apagar o que fica para trás. Depois depende. Seguindo a imagem-livro, há quem esconda o passado na última prateleira da estante, quem goste de apresentar todos os capítulos amiúde e quem não perca a oportunidade de declamar uma passagem que entretanto decorou. Outros há que põem o livro no escaparate, que esperam que o passado os empurre para o futuro, que não largam o primeiro. O passado como Bíblia.

Eu cá faço a vida por contos. Abro um conto, fecho um conto. Guardo-o para mim. Ou mostro-o, muito parcimoniosamente. Reflicto.

«Quando afirmamos que o passado foi melhor, condenamos o futuro, sem conhecê-lo», escreve Francisco de Quevedo. Será esta a parcela perigosa do saudosismo? A de recordar o que lá vai engrandecendo a memória? Não sei. Saudosista sou. Gosto de recordar tempos idos. Para mim. E sem hipérboles. Não vou com Gorki – «A carruagem do passado não nos leva longe» – e apoio Santayana – «Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo». Mas Tchekhov, esse, parece ainda mais sábio: «Onde estamos é que estamos bem. Já não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo». Ponto.

Para mim, o passado é uma mulher que passa longe. Às vezes bela, outras grotesca. Sempre distante. O passado é uma bonita flor sem cheiro, um frutado vinho sem sabor, um caderno sem folhas (ou de folhas completas). Louise Levêque Vilmorin dizia que «o passado existe quando se está infeliz». E há, parece-me, alguma verdade nestas palavras. O passado não existe. Está lá. Foi. Mas não existe. Não voltarei a ter dezoito anos. O passado não é uma máquina do tempo.

Agarrar-se ao passado pode também ser uma questão de conforto. De querer repetir o mesmo fotograma, o mesmo ângulo, a mesma luz. Disparar. «O passado, pelo menos, é seguro», opina Daniel Webster. E o nosso Virgílio Ferreira é mais conselheiro: «Guarda o passado, se não tens já futuro». Num apontamento mais político-social, que aqui nem vem tanto ao caso – tal é o tom afectuoso da coisa – assumiu-se uma vez que «quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado». (Orwell) Passado ditador, portanto.

Escrever sobre isto fez-me, curiosamente, recordar, rememorar, relembrar, recapitular, evocar que… «o único encanto do passado consiste em que é o passado». (Oscar Wilde).
Até amanhã.

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