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children of men

Agosto 22, 2007

Criar expectativas em relação a um filme é como imaginar o que se esconde por detrás do bonito papel de embrulho que enfeita os presentes de Natal: vamos sempre à espera do melhor mas o melhor raramente se verifica; e, chegada a meia-noite, sai-nos mais um par de meias oferecido pela tia-avó.

childrenofmen.jpg

Children of Men pode muito bem ser apelidado de mais um par de meias da indústria de Hollywood. O filme é mau e a culpa é toda de Alfonso Cuarón. Quando o realizador mexicano pegou no livro homónimo, escrito pela autora inglesa PD James no começo dos 90, não se deve ter apercebido que tinha provavelmente entre mãos uma das melhores histórias de ficção científica pronta para ser contada no cinema.

A acção da coisa, datada de 2006, corre num futuro não muito distante (2021) e num mundo em que a infertilidade feminina se generaliza, onde não há crianças mas apenas adultos cada vez mais adultos. Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine são o trio de actores com que Cuarón tenta segurar o filme. Mas se o primeiro, no papel de protagonista, vai até ao fim, os dois restantes rapidamente desaparecem, tendo participações extremamente curtas na fita. Uns chamar-lhe-ão coragem para “eliminar” esta ou aquela personagem; eu chamo-lhe suicídio fílmico.

childrenofmen1.jpgO argumento arrasta-se neste sentido: uma miúda (Clare Hope-Ashitey, fraquinha actriz..) está grávida e pode cometer a loucura de dar à luz o primeiro bebé em muitos anos. É imigrante e – porque naquele Reino Unido de amanhã os imigrantes são (ainda mais) perseguídos – há que protegê-la. Clive Owen é então colado à moça como um post it a um caderno e lá começam a saga por entre campos de concentração, forças militares, tiros e desgraça total.

Pena que Cuarón tenha achado que a melhor opção seria esta espécie de “road movie” sem carro, em que não largamos nem por um segundo aquela barriga que pode salvar a humanidade. E, enquanto isso, o registo tão falsamente documental (câmara tremida, pingos de sangue na objectiva) passa pela miséria dos guetos que filma como cão por vinha vindimada. Pena, pois, que Cuarón não se tenha lembrado de explorar as implicações sociais do problema proposto – a infertilidade total. Do marasmo, salva-se a fotografia e alguns planos muito bem conseguídos, o que é sobejamente pouco.

Subscrevo aqui parte do que João Lopes – inevitavelmente omnipresente nos últimos posts cinematográficos deste blogue – disse a respeito de Children of Men em Outubro do ano passado:

«Cuarón tem ao seu dispor muitas explosões e efeitos especiais… Mas para fazer o quê? Para transformar esta história inquietante de um futuro próximo em que as mulheres deixaram de ter filhos numa colagem banal de lugares-comuns (mal) copiados de alguns títulos de referência da ficção científica das últimas décadas. Isto porque, até prova em contrário, não basta ter cenários com grandes painéis de vídeo para fazer “à maneira de” Blade Runner…»

E assim se desaproveita uma excelente ideia.

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One comment

  1. por aqui também houve grande desilusão… podia mesmo ser um grande filme.
    e ainda por cima tinha sigur rós no trailer! 🙂



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