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o homem sisudo de São Martinho de Anta

Agosto 17, 2007

torga.jpgMuito se tem lido e ouvido sobre Miguel Torga nos últimos dias. É que este é o ano do centenário sobre o nascimento de Adolfo Correia Rocha, seu verdadeiro nome. Do transmontano, natural de São Martinho da Anta – Vila Real, pode dizer-se que nada daquilo que o rodeava apontava para que se tornasse num homem de letras. E, de facto, talvez nunca o tenha sido verdadeiramente: acima de tudo, Torga era um homem do campo; mais que poeta, mais que médico, mais que qualquer outra coisa. Torga amava a terra.

Parido num tempo e num espaço em que infância era uma palavra de significado bem diferente do que hoje lhe conhecemos, Miguel Torga emigrou com 13 anos para o Brasil, onde trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais. Regressado a Portugal, o escritor ruma a Coimbra, onde frequenta e conclui o curso de Medicina. E por aí se fica, na terra dos estudantes, onde por estes dias foi inaugurada a casa-museu com o seu nome.

Miguel Torga – nome em homenagem a Miguel Cervantes e Miguel Unamuno e sobrenome devido a uma urze típica da sua terra natal – andou emaranhado nas misérias de um país que Lisboa desconhecia e tornou-se no poeta do mundo rural, pejando os seus textos de referências simbólicas e evocações ancestrais. A sua atípica proximidade em relação à natureza, aliado a um carácter peculiar de tão translúcido, fizeram-no carregar títulos de individualista e intransigente. Para que reste tal memória, muito terá contribuído a sua decisão de se manter quase sempre afastado de escolas literárias e dos círculos culturais da época.

Outro dia dei com o meu pai a ler Criação do Mundo, livro de Torga; o meu pai, que nunca foi homem de grandes leituras, a dizer-me que estava a gostar do que lia. E percebi que, com efeito, o Miguel é o escritor daqueles que sentem o pulsar da terra, que a respiram a cada dia.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga, excerto do poema A Terra

Em tom de recado dirigido a Saramago, disse Alegre ao Público acerca do homem que repudiava entrevistas e prémios: «Miguel Torga é sempre uma referência, não apenas de Coimbra, mas de Portugal. E faz muita falta a Portugal, neste momento em que, mesmo aqueles que têm grandes responsabilidades intelectuais, parecem duvidar daquela que é a mais velha nação da Europa ocidental».

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One comment

  1. “Há muito tempo já que não escrevo um poema
    De amor.
    E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
    A nossa natureza
    Lusitana
    Tem essa humana
    Graça
    Feiticeira
    De tornar de cristal
    A mais sentimental
    E baça
    Bebedeira.”

    Torga, Coimbra, Portugal, Eça. Há coisas que o tempo não muda (ao contrário do Queiroz, e é melhor eu nem ir por aí). Porque são. Porque estão escritas. E em grande parte por eles. E nunca é demais lembrar, sobretudo em tão boas palavras.*



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