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Um dia tive um amigo chamado João

Novembro 29, 2006

Ontem lembrei-me de ti e das coisas que não fizemos. Das que te não deixaram viver e das outras também. Aquelas tardes em que, depois da classe com a professora Conceição, jogávamos ao berlinde à sombra de árvores que não sei dizer. Depois eram os lanches na casa de um qualquer. O leite fresco e o pão com geleia, os bolos-de-noivo e as broas de mel. Éramos só tu, eu, o Hugo e o Paulo. E havia pássaros também.

Não tínhamos mais que meia dúzia de primaveras na ponta dos pés. Éramos crianças, sinceramente crianças. Lembro-me de corrermos atrás da bola no recreio e de depois nos levarem as balizas de ferro para fazerem com elas sinais para carros que não passavam ali. Não raras vezes posso sentir o gosto do leite-de-chocolate que nos davam e de mais aqueles que à socapa roubávamos ingenuamente pela calada da noite.

Tinhas dois carvões cravados no rosto e um sorriso como o meu. Eras pequeno. E hoje, se ainda te pudesse convidar para as minhas festas de anos, serias pequeno na mesma. Estava-te no sangue. A altura.

Quando passo pelo teu irmão – sempre de cigarro na boca dos seus 14 anos – penso como pode alguém ser tão outro na pessoa que é. Ele és tu. Vi-o crescer como se ali estivesses, como se simplesmente tivesses voltado para acabar de nascer e eu não te tivesse esperado. Tenho por aquele Rodrigo um carinho que só o que de ti há nele pode explicar.

 

Ontem rememorei a tarde-noite em que ninguém sabia que era feito de ti. A última vez que estes olhos te alcançaram foi numa hora sem sombras e tu saltavas entre as pequenas covas do jogo de berlinde e tinhas as unhas pejadas de terra. Fizeram-se rondas organizadas e houve casas que não dormiram e cães que ladraram pelo teu cheiro. Ainda hoje ninguém consegue explicar com foste parar àquele poço bem abaixo do penedo onde costumávamos colher o musgo para o presépio. Não era Dezembro.

Hoje vejo a tua mãe ir ao teu encontro todos os dias. Vejo-a carregada de negro e assalta-me sempre uma vontade reprimida de a abraçar e chorar com ela. Morres num cemitério de cedros hirtos, ao fundo daquele caminho junto à minha casa – para onde fugiam os caracóis durante as primeiras chuvas; onde andávamos de bicicleta e atacávamos com pedras incertas os pardais de telhado que se riam de nós e das torpes fisgas de madeira.

A minha rua chama-se Saudade e também tu habitas nela. Somos vizinhos. Mas eu já não te posso dizer olá.

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7 comentários

  1. arrepio cavernoso.


  2. Lindo.


  3. Tantas imagens… Que bonito.

    Bem-vindo! :)*


  4. Bem-vindo coxo Hélder! Um abraço


  5. O ansiado regresso carregado de sentimento.

    Bem-vindo!

    Abraço


  6. Muito bonito, mesmo! Parabéns!
    beijinhos


  7. Ainda bem que voltaste, mister!
    lol



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