Arquivo de Outubro, 2007

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hoje acho que..

Outubro 29, 2007

..a solidão povoada é a pior das companhias.

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das arquitecturas do silêncio (IV)

Outubro 29, 2007

Al Berto

o mar só existe durante a noite
ladra-lhe furiosamente à janela
desfila como um poldro de mercúrio
no cimo dos ventos o mar é um vislumbre
da futura noite onde respiraremos na água
e se despenham os inabitados corpos

ou,
como escrevia Caeiro,

o mundo não se fez para pensarmos nele
pensar é estar doente dos olhos

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ai, o jornalismo

Outubro 25, 2007

sexta1.jpgQuase duas da manhã. Aqui, no Bairro Alto, fecha-se o número um do SEXTA, semanário gratuito que sai para a rua esta sexta-feira, 26. Apesar do cansaço – mais que muito, acreditem – eu cá já tinha saudades destes andamentos. Fazem-me lembrar os tempos do semanário Académico, na Universidade do Minho. Mas com um brutal upgrade de qualidade e meios à disposição.

O jornalismo, o jornalismo.. Gosto disto. É porreiro, pá.

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Ler Borges com o Quixote à cabeceira (II)

Outubro 13, 2007

Este post começou aqui. A continuação segue abaixo.

Bem cedo se apercebeu Borges do valor dos escritos do Manco Lepanto. Cervantes havia conseguido alcançar uma forma elegante e astuciosa de contar a realidade fazendo ficção, de ferir profunda e subtilmente sem derramar uma gota de sangue, de criticar o quotidiano e a cercania divagando como um louco sobre amores irrealizáveis, gigantes e moinhos de vento. E Borges também queria fazê-lo, queria pensar como ele.

Depois de viver em Espanha durante dois anos (1919-1921), onde frequentou os círculos literários, o escritor sul-americano regressou à efervescente Buenos Aires dos anos 20, consolidando a sua carreira como poeta através de textos publicados em diversas revistas da especialidade. Começa a escrever os seus contos de índole fantástica cerca de uma década depois. Mesclando propositadamente o onírico e o real, o velho bruxo – como muitos lhe chamavam – não se aparta por completo do tangível e verdadeiro, abarcando na nua narrativa o sobrenatural e o místico sem romper com o realismo.

Das obras borgenas destacam-se História Universal da Infâmia (1935) e Ficções (1944). Nestas duas compilações de pequenos contos – considerados por Ítalo Calvino, seu contemporâneo, como «a última grande invenção de um género literário» – Borges explana todos os seus recursos estilísticos. Títulos como A Biblioteca de Babel, O Jardim das Veredas que se Bifurcam e Pierre Menard, autor do Quixote, ilustram perfeitamente a carga metafísica, filosófica e teológica dos seus «delírios do racional» (Adolfo Bioy Casares).

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Também de prémios – que não existiam no tempo de Cervantes – foi feita a vida de Borges. Em 1961 comparte com o irlandês Samuel Beckett o Prémio outorgado pelo Congresso Internacional de Editores e, depois de muitas outras condecorações, recebe em 1979 o Prémio Cervantes. «Recordo a primeira vez que li o Quixote, aí pelos anos 1908 ou 1907, e penso que senti, ainda então, que apesar do título enganoso, o herói não é Dom Quixote; o herói é aquele fidalgo mancebo ou senhor provinciano», disse Borges ao receber o galardão das mãos do monarca espanhol. Esta era a convicção do ícone literário argentino: a de que Quixote pode verdadeiramente ser cada um dos que lêem as aventuras do «cavaleiro da triste figura».

Se a vida fosse um dia, dir-se-ia que Borges conseguiu ao final da manhã aquilo que Cervantes somente logrou alcançar ao entardecer. Ma enquanto o primeiro vivia rodeado de livros, desde os clássicos aos seus coetâneos, o segundo apanhava papeis que encontrava pelas ruas da sua terra natal (Alcalá de Enares) para saciar a sua sede de conhecimento. Miguel de Cervantes viveu na obscuridade de uma sociedade medieval e fê-la desmoronar através de uma risada colossal sobre uma cavalaria andante e agressiva. Jorge Luís Borges nasceu nas luzes e nas luzes inscreveu a sua obra e depositou o seu legado, caminhando lentamente para a penumbra física e inevitável (ficou completamente cego aos 50 anos). Todavia, Jorge teve sobre Miguel uma simples mas imensa vantagem: a de haver vivido depois dele.

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há dias em que o jornalismo dá mesmo a notícia

Outubro 12, 2007

Coisa bonita, esta que se pode ver no vídeo abaixo. O repórter da Reuters tem o privilégio de dizer a Doris Lessing, na primeira pessoa e em primeira mão, que é dela o Prémio Nobel da Literatura 2007. Gostei da reacção desta senhora velhinha que eu, confesso, desconhecia totalmente.

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Ler Borges com o Quixote à cabeceira (I)

Outubro 12, 2007

Um dia disse o argentino Jorge Luís Borges que o indivíduo «não vale pelo que escreve, senão pelo que lê». O homem de letras declarava – de modo sintético, como sempre – o seu amor pela palavra alheia e em particular a sua admiração cúmplice pelo Quixote; pelos desvarios de um cavaleiro com tanto de herói como de louco, que representa na perfeição o esqueleto de uma Idade Média contada pela mão intemporal de Miguel de Cervantes.

Imaginemos que o mundo perfeito não é mais que uma colossal e interminável biblioteca, organizada e incomensurável, geométrica e caótica ao mesmo tempo. Um emaranhado de livros que pedem para ser abertos e de páginas que só existem depois de viradas. Este podia ser o retrato do paraíso segundo Jorge Luís Borges.

Se é o mundo ibero-americano aquele que, 20 anos passados sobre a sua morte, mais se identifica com o filho dos subúrbios de Buenos Aires (Argentina, 1899), parecem não sobrar dúvidas quanto à universalidade dos seus escritos e da sua pessoa. Tão cedo como começou a ler inglês (antes que em castelhano, por influencia de sua avó de origem britânica), Borges descobriu também Miguel Cervantes e a sua obra-prima: o Quixote.

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Como muitos dos homens inesquecíveis, Borges foi uma criança especial. Aos oito anos, inspirado nas leituras das cavalarias cervantinas, escrevia o seu primeiro conto, A Víscera Fatal, e aos nove já traduzia O Príncipe Feliz, de Óscar Wilde, para o jornal El País. É em Génova (Suiça), depois de viajar pela Europa com a sua família, que em 1914 o escritor conhece a obra do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, acrescentando-a nas suas referências bibliográficas a nomes como o ensaísta inglês S.T. Coleridge ou o escocês Robert L. Stevenson, autor de clássicos como A Ilha do Tesouro. O Quixote estava para Borges a outro nível.

Mas que nível era esse? Que podiam valer para um autor vanguardista do século XX, criador do estilo hoje conhecido como realismo fantástico, os relatos de um Cervantes que foi o exponente máximo do Barroco nas letras castelhanas? Em que se tocam as existências de um homem letrado desde a sua infância, que viveu numa América do Sul cambaleante entre o fervor autoritário e a liberdade sem limites, e presenciou a destruição de boa parte da Europa nas duas grandes guerras, e a de um soldado do século XVI que serviu a coroa espanhola durante a dinastia dos Felipes?

A conexão é avultada e está estampada nos dois volumes de Don Quijote de La Mancha, publicados já no século XVII, no Outono da vida de Cervantes (1547-1616). Quixote, o livro de cavalaria que satiriza e destroça o género de que forma parte, não teria um carácter tão imutável se fosse unicamente alegre ou engenhoso. Só quando à imaginação se acrescentam a lucidez e a demolidora ironia, só aí as palavras podem ganhar uma intemporalidade comparável à do bronze de Corinto. Essas são as palavras do Quixote.
(continua)

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a bailarina a dançar noutro palco

Outubro 9, 2007
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do trabalho

Outubro 8, 2007

Finalmente. Agora que as coisas estão confirmadas, que não há mais dúvidas ou revezes, posso contar aqui o que irei fazer nos próximos tempos. Vou integrar, como jornalista, a redacção do novo semanário gratuito que se prepara para nascer. Chama-se SEXTA e, surpresa, sairá às sextas-feiras.

A coisa, projecto comum do Público e d’A Bola, terá cariz generalista e será um jornal prospectivo, que olha muito para o porvir e muito pouco para o passado, nem que o passado seja ontem. É um jornal de histórias, de pessoas que dão histórias, de projectos e ideias de pessoas que dão histórias. O SEXTA terá no seu modelo de distribuição uma das principais novidades e na tiragem colossal (350 mil exemplares) a sua principal força.

A equipa é composta por elemento do Público e d’A Bola e o jornal, a correr bem, sai ainda este mês. Depois de muitos impasses, de ter estado “quase” neste e naquele jornal, acabei por ser chamado pela casa onde estagiei. Já tinha saudades das redacções e estou feliz por voltar. Finalmente.

Continuarei a escrever para o Público, nos suplementos Economia e Digital, sempre que o tempo assim me permita. Entretanto, há o relatório de estágio para defender este mês e concluir a licenciatura; e uma outra coisa chamada Útil, jornal universitário de âmbito nacional. Já o viram por aí?

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das justiças do jornalismo

Outubro 4, 2007

«Obrigado.
Obrigado à minha família. Obrigado aos jornalistas Alexandra Lucas Coelho, David Lopes Ramos, Dulce Neto e Rosa Ruela.
Obrigado a quem já conhece “O almoço ilegal está na mesa”, “A caça à pedra maneirinha” e “Guardadores de sementes”.
Parabéns aos repórteres fotográficos Nuno Ferreira Santos e Rui Gaudêncio, co-autores das três reportagens, com quem vou partilhar o prémio monetário.
Parabéns também ao Jacinto Godinho, ao Manuel António Pina e à Mais Alentejo, que me deixam ainda mais orgulhoso por estar aqui hoje.

Como trabalhador precário que sou, deu-me um gozo especial receber o prémio Gazeta Revelação 2006, do Clube dos Jornalistas.
A minha parte do dinheiro servirá para pagar dívidas à Segurança Social. Parece-me que é um fim nobre.

Não sei se é costume dedicar-se este tipo de prémios a alguém, mas vou dedicá-lo.
A todos os jornalistas precários.

Passado um ano da publicação destas reportagens, após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato.
Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos.
Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada – no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais – o que está em causa é a democracia.
E no caso específico do jornalismo, está em risco a liberdade de imprensa.
Obrigado,
Lisboa, Ruínas do Convento do Carmo, 25 de Setembro de 2007
João Pacheco»

Este rapaz de 26 anos costumava sentar-se à minha frente, durante os meus meses de estágio no Público, para escrever as suas reportagens e fazer uns telefonemas. Este rapaz usava sempre o computador que sobrava. Este rapaz e as palavras que proferiu ao receber este prémio – na presença de Cavaco Silva e do ministro Santos Silva – deixam-me isto na boca: exemplar.

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adriana

Outubro 3, 2007

Esta menina faz hoje 42 anos. 42 doces anos carregados de ternura.

Parabéns.

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das curtas lições

Outubro 3, 2007

«O supremo vício é a vulgaridade», Oscar Wilde

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ópera de chuveiro

Outubro 2, 2007

Este tipo vendia telemóveis e cantava no chuveiro. Este tipo é feinho, gordito e tem, perdão, tinha a vida mais mediana que possamos imaginar. Este tipo foi aos “Ídolos” de Inglaterra e disse ao júri que estava ali para cantar.. ópera.

Hoje, há quem diga que Paul Potts é um dos maiores e mais instantâneos fenómenos da história da música. A agenda de concertos espalhados por todo o mundo, e a quantidade de salas que entretanto já esgotou, impressionam. E a voz?

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o novo dos radiohead

Outubro 1, 2007

Dez dias. É quanto falta para que seja posto à venda o novo álbum dos Radiohead. In Rainbows é o nome da coisa e,  numa primeira fase, será vendido apenas através de um site criado para o efeito. Supresa das surpresas: cada um decide quanto quer pagar pelo download.

Depois, e como conta Nuno Galopim, «a 3 de Dezembro sairá uma versão física do álbum, num “discbox” que, além do CD com as canções de In Rainbows incluirá ainda dois discos de vinil de 12 polegadas com canções adicionais, um segundo CD com estas mesmas canções, artwork e imagens. O pacote será guardado num invólucro de capa dura. Esta versão, feita apenas por encomenda, custará 40 libras (portes incluídos)».

É a isto que eu chamo uma boa notícia.