Arquivo de Setembro, 2007

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da arquitectura do silêncio (III)

Setembro 23, 2007

teu corpo uma montanha
nada mais quero escalar
subo e desço, desço e subo
dar amor, amor é dar

teu corpo ventania
nada mais sei eu soprar
norte e sul, sul e norte
uma bússola para amar

teu corpo oceano
nada mais sei eu nadar
onda acima, onda abaixo
barco azul a navegar

teu corpo violino
nada mais seu eu tocar
perfeito, pequenino
melodia feita mar

teu corpo uma palavra
nada sobra pra dizer
qual ar, qual pão, qual nada
teu corpo é meu viver

José Oliveira

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cinema: o filão africano

Setembro 22, 2007

   
  

O Fiel Jardineiro, Hotel Ruanda, O Último Rei da Escócia e Diamante de Sangue. Em comum têm o continente africano como tema, o serem recentes, o estarem pejados de estrelas. Mas não são filmes iguais, longe disso. Fica o repto: qual dos quatro é o melhor?

No final, darei também eu a minha opinião.

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o dia a refulgir nos espelhos

Setembro 19, 2007

«ao acordar terei de refazer a noite e o mundo. de olhos abertos, plantarei árvores de água, estenderei os dedos até tocarem a pele das tempestades e a desolação das ruas, darei nome às pedras e às catástrofes, definirei zonas de habitação e esconderijos para o amor, inventarei sistemas de permuta e troca, soltarei o vento e os mares, ouvirei o que as estrelas murmuram entre elas. depois, cansado de ordem e de arrumação, distribuirei desordem, vida, doenças, pestes, e o meu próprio esquecimento».

Al Berto

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insónia na palma da mão

Setembro 19, 2007

quando o sono não chega – e a noite é um estilhaço no peito – apetece-me fugir para dentro de músicas como esta.

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da poesia

Setembro 19, 2007

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros

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acabou-se a premiere

Setembro 18, 2007

A Premiere, única revista sobre cinema em Portugal com publicação periódica e distribuição nacional, vai acabar em Outubro. Pode ler-se aqui o texto do seu director, José Vieira Mendes, sobre a decisão; e aqui o comentário do João Lopes, um dos colaboradores da revista.

premiere.jpg

A notícia é triste. Confesso que nunca fui comprador assíduo da publicação e que até, das poucas vezes que ela me chegou às mãos, lhe encontrei algumas coisas (textos) de que não gostei. Mas era, ainda assim, uma revista de cinema, uma revista de cinema em português, que tentava pensar e dizer o cinema da melhor maneira possível – e com parcos recursos.

Espero, como também espera o director da Premiere, que o mercado não seja alheio a este vazio e que surja brevemente uma nova publicação dedicada ao cinema. Seria bom para todos. E teria público. Acredito.

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da reforma ortográfica (II)

Setembro 17, 2007

A pedido do camarada Larguesa, escrevo um pouco mais sobre a reforma ortográfica.

Em 1990, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe (e, depois, Timor) assinaram um acordo relativo ao tema que continua a ser o documento-base para uma eventual mudança que se venha a verificar. O acordo prevê uma modificação de 0,5 por cento no vocabulário brasileiro e de 1,6 por cento no dos restantes países lusófonos, que adoptam a norma portuguesa.

Em traços muito gerais, a entrada em vigor deste acordo afectaria cerca de 2600 palavras do nosso vocabulário. A alteração mais significativa refere-se, a meu ver, à eliminação das consoantes que não são pronunciadas. Assim, passaríamos a escrever ação, didático, ótimo e batismo.

Para além disso, ’simplificam-se’ as regras do hífen (anti-semita passa a antissemita) e suprimem-se alguns acentos: leem, deem, pelo (pilosidade) ou polo (como em Pólo Norte). Passará ainda a ser correcto, em Portugal e nos restantes países, escrever facto ou fato; génio ou gênio; secção ou seção; aspecto ou aspeto. A coisa considera-se correcta das duas maneiras.

E pronto, ao de leve é apenas isto que muda. E tu, António, vais poder passar a assinar Antônio, porque também estará correcto. E o teu, às vezes nosso, jornalismo económico também pode ser econômico.

Desconfio que esta pode ser uma solução drástica das gentes políticas para reduzir o número de erros nas famosas composições escolares (e não só) – já que é tanta a escolha e a variedade de opções e a simplificação (?). Não concordo. E vocês?

*fonte: Wikipédia

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da reforma ortográfica

Setembro 16, 2007

«O embaixador de Portugal em Brasília, Francisco Seixas da Costa, afirmou hoje que o Brasil e Portugal defendem posições comuns sobre a necessidade de uma reforma ortográfica».

Porque conheço alguns dos pontos da coisa proposta – e porque gosto muito do português como o escrevo – não consigo estar de acordo com isto. Nem pensar. Valeu?

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das arquitecturas do silêncio (II)

Setembro 15, 2007

Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

Alexandre O’Neill

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a dália negra ou o noir fora de tempo

Setembro 13, 2007

Por entre dias ainda incertos, com o devir a espreitar envergonhado, vou enchendo as horas entre o estudo mais ou menos superficial de uns preciosos volumes de Dalí (vida e obra) que meu pai me ofereceu e a reflexão-não-vontade-consumada-de-escrever o relatório de um estágio que já vai longe.

Pelo meio, há as palavras cadentes de Al Berto, as actualidades às vezes flamejantes, um Jornal de Letras todo dedicado a Prado Coelho e O Delfim, do José Cardoso Pires, a virar as primeiras páginas. Sobra o cinema, gosto que tenho retomado com mais assiduidade. O clube de vídeo barateco perto de casa veio ajudar.

black_dahlia.jpgEntre as últimas fitas que vi está A Dália Negra, de Brian de Palma. Antes de mais, dizer que é um filme fora de tempo, o que não é mau. Filmar na Europa do século XXI o glamour e a estrutura narrativa do passado do cinema norte-americano à maneira dos anos 30/40 pode ser um desafio e tanto.

Depois há o género: film noir do começo à outra ponta. E, para quem não gosta, nem sequer vale a pena passar daqui. Não apreciando o original é impossível regalar-se com a cópia. E A Dália Negra copia muitos dos tiques desses filmes cheios de polícias, assassinos e algum suspense.

black-dalia.jpgDa obra, diz João Lopes que «os resultados, desequilibrados e paradoxais, são à medida da “insensatez” do projecto: filmar à maneira de Hollywood, ao mesmo tempo expondo as feridas morais do seu imaginário — neste caso através da história (apoiada em factos verídicos) de uma actriz assassinada». E acrescenta ainda um «pormenor nada secundário: a voz off do director de casting é a do próprio realizador do filme que estamos a ver». As coisas que este homem sabe..

A Dália Negra conta com as participações de Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank e da também bela Mia Kirshner (aí na nossa RTP2, com a excelente série The L Word). Não é um filme excepcional, nem tremendamente cativante. Mas é, ainda assim, um simpático exercício de recriação cinematográfica – e tão fotográfica – que, nos seus derradeiros momentos, ganha alguma cor.

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do público e do privado

Setembro 13, 2007

profissaoreporter.jpgCada vez mais, as empresas privadas podem prestar bons serviços públicos. A Fnac do Chiado, Lisboa, está a passar um completíssimo e muito interessante ciclo de cinema italiano. A coisa é gratuita, diária e arranca normalmente às 18h30. Ontem, sem saber da existência da iniciativa, fui surpreendido com o começo de Profissão Reporter, de Antonioni. Belo presente, ainda para mais porque nunca tivera a oportunidade de ver o dito filme. Valeu a pena. E a cadeira nem era tão má quanto isso.

lifemiracle.jpgJá o serviço público deixa, aqui e ali, muito a desejar. A RTP1, há coisa de três dias, passou um filme de referência, filme que muitos portugueses (vá lá, alguns) teriam certamente interesse em ver. A Vida é um Milagre, de Emir Kusturika. O problema é que a fita começou quando já passavam das 02h30. Quase inacreditável.
É que a RTP, mesmo assim bem melhor na sua programação que a mediocridade que prolifera nos canais privados, consegue, não se sabe bem como, dar contantes tiros nos pés, como este – e ainda mantém no seu horário nobre jornalistas tão boçais como é Luís Baila (e quem ontem viu a tragédia da selecção scolariana saberá do que estou a falar).

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mais um companheiro

Setembro 12, 2007

Outras Coordenadas é o blogue do Nuno Abreu, companheiro que partilha comigo o gosto pelas viagens. A página deste amigo é exactamente isso: um espaço onde vai escrevendo sobre (e mostrando as) suas passeatas por aí. E que passeatas.

A fotografia, outro dos amores compartidos, anda por lá e merece que lhe deitemos o olho. O Nuno prepara-se agora para encetar os estudos em Ciências da Comunicação. A viagem, bem sabemos, é tortuosa. Mas eu diria que ele vai no bom caminho.

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dos 30 mil visitantes

Setembro 12, 2007

Dez mil visitantes em dois meses e meio. De finais de Junho até agora, o Lábios de Silêncio teve um trimestre profícuo, motivado por deslizes cambaleantes de cibernautas distraídos, resultados de motores de busca incompetentes e a complacência de amigos e colegas perseverantes.

A verdade é que Agosto foi o melhor mês de sempre deste blogue ainda em idade menor. Não vou discorrer sobre as causas mas não me posso escusar a enumerar esta: Pink Floyd. É verdade, Pink Floyd é o termo que, dia após dia, mais visitantes traz até aqui através do Google e afins. Algumas vezes escrevi sobre a minha banda preferida, Pink Floydd, é certo, mas não foram assim tantas. E o facto de estar neste momento a repetir a expressão Pink Floyd tantas vezes nada tem que ver, garanto, com o facto de Pink Floyd ser o conjunto de letras que apresenta o Lábios de Silêncio a mais gente. Em suma, Pink Floyd para todos vós.

*Em Novembro apago a primeira vela do meu blogue. E o novo ano está quase aí, com uma novidade bonita (e ainda secreta) prometida para a blogosfera. Abraços.

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motelx e avante

Setembro 10, 2007

last_house_left.jpg

Longe do teclado por uns dias, o final de semana trouxe-me cinema e música para contar. Começou na noite de quinta-feira, com o arranque do MOTELx, primeiro festival de cinema terrífico em Lisboa. Sobre a coisa – e seus dois filmes de estreia – escrevi aqui, no Rascunho.

 

imagemdeolinda.jpgChegou a sexta-feira e com ela a tradicional romaria ao Avante. Margem sul, pois claro. O cardápio musical era, dizia-se por aí, um dos melhores de sempre da festa. E, em boa verdade, valeu a pena.
Assim, a puxar depressa os cordões da memória, ficaram-me alguns grandes concertos: os tão portugueses Deolinda; os festeiros da música étnica Fanfare Ciocarlia, vindos da Roménia; Toumani Diabate e uma kora mágica onde parecia caber uma mão cheia de instrumentos; e, ontem, quase a fechar, as músicas intervencionistas de Zeca Afonso pela voz azul de Jacinta, num bonito momento de fraternidade.

Música à parte, a Festa do Avante continua a ser dona de uma auréola que não se encontra em parte alguma. E não é preciso ser-se militante do PCP, que não sou nem serei.
Os anos passam e a festa vai ganhando travo de festival de verão, as cores políticas cada vez pesam menos e o público é bastante difuso, às vezes duvidoso. Mas é nos abraços de quem genuinamente ali vai para ser feliz, para dançar a Carvalhesa aos rodopios, para compartilhar três dias com um brilhozinho nos olhos, é nos abraços e nos olhos desses novos e velhos (os velhos, como gosto eu dos velhos do Avante), é, pois, aí que se faz a verdadeira festa. E, apesar dos tempos, é ainda bonita a festa, pá.

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mulher pirata

Setembro 5, 2007


«Amor é sede depois de se ter bem bebido»

Um pedaço de música bem bonito, sacado do tema A Saudade Mata a Gente, um dos meu favoritos entre aqueles que passeiam no alinhamento do álbum Pirata, de Maria Bethânia

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das arquitecturas do silêncio

Setembro 5, 2007

Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)

Fernando Pessoa

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do irrefutável

Setembro 4, 2007

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira

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lisboa, por josé cardoso pires (II)

Setembro 4, 2007

No pequeno livro dedicado à capital de que já aqui falei, José Cardoso Pires enumera umas quantas obras de pincel que conservam o espírito da sua Lisboa. Esta, pintada a óleo por Abel Manta (1888-1982), mostra o Largo de Camões, também um dos meus espaços predilectos da cidade, por sinal. Corria o ano de 1932 e, ontem como hoje, o Camões era já um bulício de gente desencontrada.

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dos loucos e sonhadores (VI)

Setembro 3, 2007

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Florbela Espanca, «Se tu viesses ver-me..» 

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provavelmente a melhor animação do ano

Setembro 3, 2007

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«Food is fuel. You get picky about what you put in the tank, your engine is gonna die. Now shut up and eat your garbage», Ratatouille