Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha . há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
já conhecia de nome – e de esporádicas passagens – o planeta da joana. mas, confesso, não viajava muitas vezes até lá. não por qualquer outro motivo que não fosse o inevitável desapego às coisas (e pessoas) que não nos estão tão próximas e que, por isso, acabamos por perder no meio da multidão de vozes (e de blogues).
agora isso mudou. e o b612 fez-se para mim destino constante. gosto dos habitantes daquele pequenino mundo.
Já me arrependi de ter dado 73 euros pelo bilhete geral do Super Bock Super Rock. Confesso, não sabia que a coisa ficava plantada num desterro chamado Sacavém e que duas horas são provavelmente a melhor performance possível para voltar do recinto para Lisboa nos fabulosos serviços de transporte que a organização oferece. E, melhor ainda, cada ida e volta ao desterro tem um simpático acréscimo de 3 euros ao orçamento festivaleiro. Genial.
Tirando isso, não me arrependo de nem um dos euros que larguei. A primeira noite foi Metallica e pronto. E ponto. É uma daquelas bandas que a malta costuma dizer que deve ser vista pelo menos uma vez na vida em concerto, certo? Já está. Nã há muito mais a dizer. A não ser que a enchente foi tremenda e que os verdadeiros fãs da banda deliraram com a prestação dos meninos que já carregam décadas de música nas costas.
Do que aí vem, espero com muita vontade por Arcade Fire (que ouço agora mesmo, enquanto escrevo). Mas, bem sei, avizinha-se semana complicada, com noites de Super Bock e dias de afazeres inadiáveis. A ver vamos como corre.
Sete meses e dois dias depois do primeiro post, a minha pequenina casa prepara-se para passar a marca das 20 mil visitas.
Gosto de efemérides. E por isso assinalo aqui, sem me alongar, mais um número redondo na história deste blogue. Do Lábios de Silêncio e dos seus (des)caminhos já escrevi em Janeiro aquando das primeiras 5 mil visitas e por isso não me repetirei.
Digo apenas que por cá continuarei, neste papel-de-ecrã com nome tão devotamente devedor da pena musical do Jorge Palma. Mas, segredo dos segredos, o começo de 2008 trará uma novidade blogosférica assinalável neste nosso complexo e mavioso círculo de amigos dos amigos dos amigos. A revelar, em breve.
Aproxima-se a um ritmo frenético o final do estágio no Público. E parece que ainda ontem comecei. A coisa tem corrido muito bem, felizmente. Mas é tempo de (re)pensar as linhas da vida e apontar direcções. Há portas, ainda incertas, a abrirem-se. Delas falarei quando o que está no ar se tornar palpável. Agora, resta-me dizer que estagiar neste jornal tem sido uma das melhores experiências que me proporcionaram estes 22 anos de dias e noites.
Quando sair, sairei contente. Dei o que pude e, julgo, recebi umas quantas coisas em troca. O meu mundo (ainda) é Público e nunca deixará de o ser por inteiro, espero.
Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar
acabam de entrar-me nas mãos, vindos da pequena biblioteca plantada no tradicional retiro dos finais de semana, dois nacos de papel. O Último Adeus, de Balzac; e As Horas, de Cunningham. um francês, um americano.
cheiram ao mesmo. e são para ler quando o tempo deixar.
*esta noite, à 01h30, passa na 2 Mélo (1986), de Resnais.
Os mais próximos sabem como me passo – isso mesmo, me passo – com estas coisas da tecnologia. E a última novidade tinha mesmo que vir parar aqui. Parece que um dia destes dizemos adeus a controlos remotos e coisas que tais. It’s all about the brain.
Ontem vi, finalmente, a curta de animação mais falada em Portugal nos últimos tempos: História Trágica com Final Feliz. E, já se percebe, gostei. Muito.
A coisa chegou-me pela tela do Village Festival, casa temporária do cinema digital em Lisboa que visitei pela segunda noite consecutiva. Desta vez para ver o «Panorama Mundial» de curtas animadas. Umas interessantes, outras giras, outras nem tanto (e o muito sono cansado também me não ajudava). Mas pareceram-me muito bem as pequeninas portuguesas apresentadas pela Zeppelin Filmes (e poderia ter nome mais bonito?).
Fica o vídeo da estória da Regina Pessoa, ainda que sem a fundamental voz narrante da Manuela Azevedo.
Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.
Lisbon Village Festival, ontem. Olga, Vitória Olga, da argentina Mercedes Farriols. Valeu, apesar das tantas e tantas cadeiras vazias e da musiquinha de DJ a ressoar na sala durantes os últimos minutos, vinda do piso de cima do São Jorge. Pormenor tão desagradável..
Ficam as frases soltas do filme, frutos dos actos miméticos com que componho a memória.
«À noite, o tempo dura mais»
«A água apaga as caras. É como o tempo»
«A vida passa por mim como um filme mudo numa língua que não conheço»
«O tempo.. O que é o tempo, afinal?»
*para hoje há uma excelente mostra de animação marcada para as 21h30, também no São Jorge.
Ontem revisitei aquele que, para mim, é um dos melhores filmes de 2006: Little Children. Retrato cru da vida suburbana de uma pequena cidade dos EUA, aquilo que mais confunde, porque agrada, na fita de Todd Field é a simplicidade. Acaba-se com a sensação de que qualquer realizador, mais ou menos dotado, trataria do assunto. Nada mais falso. Não é inventivo e isso agrada-me, às vezes. Não aborrece com tecnicismos escusados. Desliza.
Little Children – ou Pecados Íntimos, como lhe chamaram em Portugal – concentra tudo em dois aspectos: a profundidade das personagens e o compasso.
- a cadência do filme é perfeita, lenta, arrasta-se e arrasta-nos. E depois há uma voz de narrador enleante, que hipnotiza, que prende.
- nas personagens, duas são-me especialmente caras (e secundárias): a do pedófilo Ronnie (Jackie Earle Haley) e a do ex-polícia traumatizado Larry (Noah Emmerich). O primeiro assusta de tão humano que é; e, pecado dos pecados, consegue pena vinda deste lado da tela. O segundo é o estereotipo do tipo à deriva, que se agarra às pequenas coisas, sedente de atenção, tresloucado, real.
Depois há o sexo, a mesquinhez, a promiscuidade e a irritante brandura do comezinho do dia-a-dia.
No final, ficou-me uma entre muitas imagens: quando Sarah (Kate Winslet) empurra a filha no balouço do parque, com a câmara a filmar de frente e a pequena a vir na direcção do ecrã, mesma direcção onde, na cena, se encontrava o pedófilo. A mãe como que a empurrar a filha para o abismo.
Não há inocentes em Little Children. Gosto disso. «Começa no parque e acaba no parque», alguém disse. Chega.