Arquivo de Dezembro, 2006

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o poema preferido

Dezembro 25, 2006

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

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Dezembro 21, 2006

o vinho é honesto

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velha máxima

Dezembro 20, 2006

«Entre todas as ciências que têm uma aplicação, é a Política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos.»

Baruch Espinosa, in Tratado Político (p.12). Lisboa: Editorial Estampa, 1977

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o regresso do ogre

Dezembro 19, 2006

É verdade, vai mesmo haver uma terceira parte da saga Shrek e estreia nos EUA já em Maio de 2007. Desta vez, Shrek (Mike Myers) torna-se herdeiro do trono de Longe, Muito Longe quando o rei Harold, pai de Fiona, fica doente.

Mas o ogre não está disposto a abandonar o pântano para se tornar monarca. Assim, incumbe aos seus amigos Burro (Eddie Murphy) e Gato de Botas (Antonio Banderas) a tarefa de encontrar o verdadeiro herdeiro do trono, o príncipe Artie (Justin Timberlake [enfim.. :) ]).

Deixo-vos algumas imagens. Deliciosas.

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les aventures de tintin

Dezembro 19, 2006

Começam amanhã, em Paris, as comemorações do centenário do nascimento de Hergé (1907-1983), criador do nosso bem conhecido Tintin. Encontrei a informação aqui e bateu-me um certo saudosismo daquelas manhãs de domingo que vão já tão distantes.
Deixo a foto de “família”, para recordar.

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às vezes

Dezembro 18, 2006

o ar está mais desagalhado, mais frio, mais triste
e há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…

Álvaro de Campos

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vontades

Dezembro 15, 2006

Quanto querer em te dar um abraço.
Quanta vontade de te bater à porta.

(…)Hoje, reflectido no espelho, não me vi. Quis perguntar-me o que se passava mas não me ouvi. Incompleto, pensei, incompleto é estar assim. Lembrei-me de uma velha casa, cansada de existir, de ver chegar e partir aqueles que nela habitam sem nada poder fazer. Senti-me assim. Pensei em ti.

Um dia vi-te chegar. Bateste delicada e cuidadosamente na porta da minha vida. Cuidadosamente te cedi passagem. O tempo voou e, parcos luares volvidos, estavas já de pedra e cal na artéria maior da minha existência. Gostei-te ali.(…)

Perco-me com facilidade nas vírgulas do pensamento. Aconteceu aqui, nestas palavras escritas por dedos torpes, vergados pela saudade. Numa noite negra em que a chuva cai por milagre. Num quarto de paredes despidas e amorfas. Não me quero perder mais. Basta. Vou escrever ponto final. Incompleto, assim acaba.

excertos de uma quinta-feira (24 de Novembro de 2005)

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bom dia

Dezembro 15, 2006

Impressão, Sol Nascente (Museu Marmotan, Paris); Claud Oscar Monet (1840-1926)

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hipnótico. é isso. hipnótico.

Dezembro 14, 2006

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escarmentar

Dezembro 14, 2006

do latim excarmentare

vb transitivo.

castigar;
repreender;
tornar experiente;

vb. intransitivo e reflexivo.

arrepender-se;
ser castigado física ou moralmente;
emendar-se;
corrigir-se.

(Priberam Informática – Língua Portuguesa On-Line)

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para ler antes de dormir

Dezembro 13, 2006

A correspondência entre Raúl Brandão e Teixeira de Pascoaes, dois nomes maiores das letras portuguesas nos começos do XX, dois escritores e amigos dos que hoje rareiam (uns e outros). É este o meu novo livro de cabeceira. Fruto do árduo trabalho de recolha e transcrição de António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano, a obra foi-me aconselhada pelo amigo (ainda os há!) Sílvio Mendes.

Ontem, antes de pregar olho, consumi as primeiras 30 páginas. Não sonhei com elas, mas pode dizer-se (ou estarei a imaginar?) que dormi melhor. Estou já com muita vontade de ler Húmus (1917), do senhor Brandão.

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borat

Dezembro 13, 2006

Borat – Cultural Learnings of America For Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan é humor non sense com uma ou outra passagem completamente surreal. Não de me defraudou porque já levava as expectativas no lugar: em baixo. Conhecia de antemão a figura (quem não viu Ali G..) e havia lido em fonte segura uma apreciação do filme.
O que de melhor fica são os testemunhos de alguns norte-americanos (o tipo da escola de condução ou o tipo do rodeo..), o momento em que Borat canta o hino-do-Cazaquistão-versão-EUA e, claro está, a cena bem despida do quarto de hotel (mais não digo). Para :) , nada mais.

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solstício

Dezembro 13, 2006

do latim solstitiu

sub. masc.

tempo e ponto da eclíptica em que o sol, tendo chegado aos trópicos [pontos mais afastados do equador celeste], parece estacionário durante alguns dias, antes de começar a aproximar-se novamente do Equador [ocorre em Junho e Dezembro].

(Priberam Informática – Língua Portuguesa On-Line)

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comum online

Dezembro 12, 2006

Antes do dia findar, não podia deixar de falar dele. Lembro-me como se fosse hoje. Há coisa de um ano e alguns meses atrás, eu e o Hugo paríamos o ComUM_online nas folhas de guardanapos de uma esplanada de café. Tempos depois, precisamente a 12 de Dezembro de 2005, o projecto via a luz. Nascia.
Quando saí, para me ir de Erasmus, disse aqui o que pensava e sentia sobre e pelo ComUM.
Agora, já não chefe-de-redacção de sociedade, já não fazedor de notícias e editoriais, vejo o portal crescer e alegro-me. Continuo, ainda assim, umbilicalmente ligado àquela paragem virtual. Agora como colunista, aqui.
Orgulho-me e porque o orgulho nem sempre é mau repito, orgulho-me de ter estado na génese dessa coisa bonita que é o ComUM.

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milan kundera (2)

Dezembro 12, 2006

«A porta da vulva é importante, claro (claro, quem se atreveria a negá-lo?), mas demasiado oficialmente importante, local registrado, classificado, controlado, comentado, examinado, experimentado, vigiado, cantado, celebrado. A vulva: encruzilhada clamorosa onde se encontra a humanidade aos ladridos, túnel por onde passam as gerações. Só os tolos se deixam convencer da intimidade desse local, o mais público de todos. O único local verdadeiramente íntimo, perante cujo tabu até os filmes pornográficos se inclinam, é o olho do cu, a porta suprema; suprema porque a mais misteriosa, porque a mais secreta».

in A Lentidão, p.71/72

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Edvard Munch

Dezembro 12, 2006

Gostei muito do logo que hoje o Google adoptou, inspirado n’O Grito. Fui à procura da causa, para compreender. Et voilá: Edvar Munch, autor do famigerado quadro expressionista nasceu a 12 de Dezembro de 1863, na Noruega. Fica a homenagem.

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olor

Dezembro 12, 2006

do latim olore

sub. masc.

cheiro agradável;
aroma;
perfume; odor

(Priberam Informática – Língua Portuguesa On-Line)


PS. Para dizer que copio – e admito-o – esta rubrica ao amigo e companheiro de casa. Mas ele sabe que
é coisa mútua o, como direi, novo e aprazível hábito de anotar no caderninho as palavras mais ou menos desconhecidas, mais ou menos misteriosas, e de querer ir-lhes ao cerne, ao caroço.
E assim vingo-me também da imitação que esse cábula operou quando me decidi em mudar para o domínio wordpress.com :)

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a arte de dizer fazendo pensar

Dezembro 11, 2006

Ouvi hoje durante uma aula e da boca de um professor coisas que não quero nem posso deixar que passem em claro. Partilho convosco o substancial daquilo que sofregamente fui apontando (e que raro isso é..) durante o discurso.

“Acima de tudo não suporto uma universidade que não respeita o campo individual de cada um. A cultura vive na liberdade, não na mordaça. Isso é coisa de doidos. E, se a universidade não nos ensinar pelo menos isso, então não valeu de coisa nenhuma passar por cá”.

“Gostaria hoje de chamar pelos vossos nomes. Na busca do saber somos [professor e alunos] iguais. Onde é que está a diferença?”.

“Bolonha é um logro. É bom para os que têm orçamentos de Estado gordos, ou propinas altíssimas. Não para um país onde se corta na educação e se continua a falar em paixão, que isto é uma paixão. Que paixão? Paixões destas, e para utilizar uma expressão camiliana, são paixões funestas”.

“Acho que este país nunca se levou a sério, esse é o problema”.

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milan kundera

Dezembro 11, 2006

«Há um elo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento.»

«Imprimir forma numa duração, tal é a exigência da beleza, mas também a da memória. Porque o que é informe é inapreensível, imemorizável.»

in A lentindão, p.31

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bom dia

Dezembro 10, 2006

Ainda era manhã alva, manhã mesmo, e já eu entrava na Centésima Página, sozinho. Comigo saíram dois livros. A Lentidão (Ed. Asa), primeiro romance escrito em francês por Milan Kundera; e Estorvo (Dom Quixote), desse artista multicolor que é Chico Buarque. Agora, que a conversa com Saramago chegou ao derradeiro ponto final, é com o checo que me vou haver.

Outras coisas

a não perder – a reportagem da SIC Vida de Sobras, sobre o flagelo inacreditável que é viver (?) do lixo. Hoje, depois do Jornal da Noite.

a acompanhar – Da Literatura, blogue de Eduardo Pitta (e companheiros), homem de letras cujas palavras enchem também as páginas do suplemento Mil Folhas (Público).